Quando anoitecer

-Ayumi-



Mais um dia perdido para Suuichi Minamino. Ele voltava do cursinho pela noite silenciosa, seus livros e cadernos dentro da pasta preta de couro, presente do padrasto quando soube que Suuichi voltaria a estudar de noite para recuperar o tempo que perdera lutando no Makai.

Suuichi caminhava devagar, sem presa, aquelas horas que perdia dentro da sala de aula eram totalmente inúteis para ele, mas sua mãe parecia gostar do fato dele entrar para uma faculdade. Ele suspirou, gostava de vê-la feliz, perder quase meio ano naquele curso não seria um sacrifício tão grande.

Ele passou por um bar, as luzes acesas chamaram sua atenção e ele olhou para dentro, lá um grupo de garotas o olhavam cobiçosas, mas ele não se importou. A única garota que ele realmente queria não estava lá, nunca estaria.

Ele olhou para o relógio no pulso, àquela hora sua mãe com certeza já estava dormindo, metade da cidade já estava dormindo.

Suuichi olhou para o céu, lá a lua crescente brilhava gloriosa cercada de estrelas, lembrou o sorriso da garota, sempre tão vivo e feliz. Mesmo quando estava triste ela conseguia sorrir, ele a adorava. Mesmo sabendo que nunca ficaria com ela.

- Me desculpe Kurama, não sei como posso corresponder a você, eu preciso de um tempo para pensar, você entende não é?

A voz dela ainda ecoava na mente de Suuichi desde a última conversa deles, parecia que fora há uma eternidade.

Ele caminhava de cabeça baixa, tentando organizar os pensamentos. Quem mandara ele se empenhar tanto para não se aproximar dela? Mas mesmo assim não tivera lá muito sucesso. Como na vez que eles foram juntos resgatar Yusuke, e a garota acabou perdendo a alma, quando Kaito disse que a cor da alma dela era a sua preferida, Suuichi sentiu uma onda de raiva tomar conta de seu corpo, precisou de todo o seu autocontrole para não esganar Kaito. Mas depois ela ficou bem, graças a ele.

Suuichi ficou imaginando onde ela estaria, se estaria pensando nele. Os olhos verdes do rapaz se encheram de esperança, mas ele logo lembrou que a garota não queria nada com ele. Pior do que isso, ela não se importava.

O descaso dela doía mais do que uma rejeição direta.

Suuichi continuou caminhando, seus pés o levaram para o seu recém comprado apartamento, que ficava no mesmo prédio do de Yusuke, mas um andar abaixo.

Ele olhou para cima, naquele lugar ela havia se sacrificado para salvar Mittarai (n/a: É o garoto loiro do grupo do Sensui, o Seamen, não sei se o nome dele se escreve desse jeito.).

“Droga, porque tudo o que eu vejo me lembra ela?” perguntou-se irritado.

-         Suuichi!

-         Maya? – o rapaz virou para a garota que corria para ele sorrindo

-         Ah que bom que eu te encontrei! – disse ela se apoiando nos joelhos para recuperar o fôlego.

-         Você estava me procurando?

-         Sim, eu fui até o seu cursinho, mas você já tinha saído. – ela olhou para ele feliz

-         E o que você queria comigo?

-         É que amanhã eu vou viajar e queria me despedir de você antes.

-         Nossa que legal Maya, e pra onde você vai?

-         Pro Canadá. Escuta Suuichi, eu resolvi seguir o seu conselho.

-         O meu conselho?

-         É, lembra de quando eu me declarei pra você e você disse que já gostava de outra garota?

-         Hã, lembro.

-         Então, você me disse para procurar alguém que me merecesse, e é o que eu vou fazer! – ela sorriu

-         Que bom Maya, te desejo sorte. – disse ele retribuindo o sorriso

-         Tchau Suuichi, espero que a gente possa se ver de novo.

A garota abraçou Suuichi, mesmo a rua estando deserta e não haver ninguém para olha-los, Suuichi se sentiu estranho ao abraçar Maya, era como se estivesse traindo alguém ao abraçar a amiga prestes a viajar.

-         Faça uma boa viajem! – desejou Suuichi ao ver a garota ir embora

-         Obrigada!

Ele viu ela entrar em um táxi e logo desaparecer. Suspirando, Suuichi virou-se para a porta enfiou a chave, ouviu a tranca se abrir e empurrou a porta. Dentro do edifício era ainda mais vazio do que fora. Ele subiu as escadas até chegar ao andar em que morava.

Ligou o interruptor do apartamento pequeno, e logo se dirigiu para o quarto, onde tirou as meias e se jogou na cama.

Todos os dias tinham sido iguais. Do trabalho na livraria para casa e de casa para o cursinho, e de volta para casa. Tinha sorte se conseguia ver Yusuke no corredor, ele era o único amigo que ainda tinha por perto.

Ele não tinha comido nada desde o almoço, se arrastou até a cozinha e abriu a geladeira. Ela estava quase vazia, ele não tivera muito tempo para ir ao supermercado aquela semana. Teria que se contentar com um sanduíche e um copo de leite, desnatado ainda por cima.

Da onde aquele leite saíra? Ele não tomava leite desnatado, aquele negócio nem tinha gosto de leite. Ah sim, é que ele tinha pedido para alguém fazer as compras da semana passada. Quem tinha sido mesmo? Ah sim, Keiko. Mania das mulheres de comprar leite desnatado, ele tinha que lembrar de nunca mais pedir para ela fazer as compras para ele.

Suuichi, seu sanduíche e seu leite desnatado se arrastaram para a sala onde o ruivo ligou a tv.

Noticiário local.

Botão de mudar o canal.

Filme pornô.

Botão de mudar o canal.

Reprise de algum programa de música.

Botão de mudar o canal.

Documentário sobre a mata costeira das Ilhas Fiji.

Botão de mudar o canal.

Programa de culinária.

Suuichi ficou vendo como preparar um ótimo bolinho de restos, usando todos os restos de sua cozinha, e quando eles diziam restos, eles queriam dizer, TODOS os restos, nem a casca da batata escapava.

Por fim, depois de até desistir de comer o sanduíche ao ver que eles também usavam as cascas de pão, Suuichi desligou a tv.

Ele ficou olhando a tela negra por um tempo. Ele se levantou, foi ao banheiro, escovou os dentes. Voltou à sala para limpar o seu jantar. E estava passando por ali de novo para voltar ao seu quarto quando sentiu.

Tudo à sua frente ficou desfocado, ele perdeu o equilíbrio, tentou se apoiar na parede, mas errou por meio metro. Ele caiu no chão com um barulho surdo. Ele já não sentia mais nada. Tudo à sua volta ficou preto. “Eu vou morrer?” conseguiu pensar antes de se entregar à escuridão.

-         Kurama?

Era uma voz feminina que chamava.

-         Kurama? – perguntou ela outra vez.

Aquela voz lhe era familiar.

-         Vai ficar tudo bem Kurama, olhe pra mim. – duas mãos macias pousaram em cada lado do seu rosto.

Suuichi tentou abrir os olhos, mas eles estavam muito pesados, era um verdadeiro sacrifício.

-         Por favor, Kurama, olhe pra mim.

-         Q-quem...É...? – perguntou Suuichi com a voz embargada

-         Sou eu Kurama, olhe pra mim. – disse a voz

Suuichi abriu um pouco os olhos, deixando que uma luz intensa e brilhante o ofuscasse, e bem no centro dela, estava a sombra de um rosto sorridente, a moça que segurava seu rosto entre suas mãos o olhava radiante. Seus cabelos azuis caindo levemente sobre Suuichi.

-         Bo...tan...? – perguntou o rapaz tentando enxergar

-         Shhhh, não precisa falar nada, apenas fique acordado.

-         O que? Onde, onde eu estou? – perguntou o ruivo tentando olhar para os lados, mas as mãos da garota não deixavam, obrigando-o a olhar somente para ela.

-         Você tem que voltar Kurama, não pode ficar aqui. Eu não quero que fique aqui. – pediu a voz

-         Botan... – chamou o rapaz tentando erguer a mão para tocar a moça, mas ela estava tão pesada quanto seus olhos, e era impossível move-la.

-         Eu não sabia o que dizer aquele dia, fiquei confusa. Me perdoe.

Suuichi tentou abrir mais os olhos, mas não conseguia. Sentia alguém segurar a sua mão, mesmo que a garota estivesse com suas mãos bem longe das dele.

-         Eu te amo demais para deixar que se vá Kurama.

A mão que o segurava começou a puxa-lo, Suuichi não queria ir, mas a mão era muito mais forte do que ele.

-         A gente se vê. – disse ela beijando os lábios dele

A mão lhe deu um puxão particularmente forte e Suuichi começou a se afastar da garota, ele tentou ficar, mas não tinha mais forças.

-         Botan!

Ele se ergueu sobre a cama branca do hospital, ele olhou em volta procurando a garota, mas o quarto estava vazio. Ele ouviu vozes distantes no corredor, não se importou, precisava vê-la. Agora.

Ele olhou em volta, suas roupas estavam dobradas sobre uma cadeira, ele se levantou. As vozes no corredor estavam ficando próximas. Uma vertigem tomou conta do ruivo ao se levantar tão rápido, e ele se apoiou na cama. As vozes próximas o estavam deixando nervoso. Foi até suas roupas e começou a se vestir.

A porta se abriu.

-         O que diabos você pensa que está fazendo? – perguntou Yusuke exasperado entrando.

-         Foi você que me trouxe Yusuke? – perguntou Suuichi fechando a calça

-         Foi. Cara, você não pode sair por aí assim depois do que aconteceu. – disse o garoto forte parando de frente para o amigo

-         Eu não sei o que aconteceu, nem importa, eu preciso acha-la. – disse o ruivo vestindo a camisa

-         Kurama. Você morreu. – disse Yusuke encarando ele.

Suuichi o encarou de volta, surpreso.

-         O que?

-         Você morreu cara. Eu vi o seu espírito quando eu cheguei na sua casa.

-         O meu espírito? – Suuichi estava pasmo, como foi que ele morrera e nem ao menos tinha percebido?

-         É. Você passou dois dias morto. E então de uma hora pra outra você reviveu! – disse Yusuke levantando as sobrancelhas – Seu coração recomeçou a bater assim, do nada. Cara, você é o mais novo milagre da medicina.

-         Como assim Yusuke? Mas eu não lembro de ter estado no Reikai.

-         É, o Koenma disse que você não se lembraria mesmo.

-         Por que? – Suuichi já estava ficando irritado por Yusuke enrolar tanto para falar

-         Porque não era para você morrer Kurama. Você morreu, quando não tinha que morrer, mas mesmo assim era para você continuar morto.

-         Yusuke eu não estou entendendo, dá pra falar a história toda de uma vez?

-         É o seguinte Kurama, alguém entrou no seu apartamento e colocou um veneno do Reikai escondido em algum lugar.

-         O leite desnatado... – disse Suuichi acompanhando

-         Deve ter sido. Bom o caso é que esse veneno é mortal, você toma e deu. Acabo pra você, passa direto pelo purgatório e sua alma já era.

Suuichi lembrou da sensação de dormência geral que sentiu quando viu...

-         Botan. – sussurrou Suuichi

-         O que você disse?

-         Como foi que eu não perdi a minha alma?

-         Ah isso. Eu fui ao Reikai tentar pedir a sua alma de volta, foi quando o Koenma me contou tudo isso.

-         Você foi ao Reikai? Mas Yusuke, eles não estavam atrás de você?

-         Não se preocupe com isso, já esta tudo bem agora, Koenma deu um jeito.

Suuichi suspirou aliviado.

-         Menos mal. Mas e aí? E a minha alma?

-         Bom, quando eu cheguei lá, eu vi. Isso não faz muito tempo, eu diria que foram umas 13 horas no máximo, desde então eu vim direto pra cá ver se tinha funcionado.

-         O que tinha funcionado? – perguntou Suuichi quase gritando

-         Botan. – disse Yusuke, Suuichi desmoronou.

-         O-o que aconteceu com ela? Fala Yusuke! – gritou Suuichi agarrando a gola da camiseta do rapaz

-         Ela desobedeceu às ordens do pai do Koenma.

-         Ela desobedeceu o senhor Enma? Por que?

-         Porque ele tinha ordenado que ela levasse você para que sua alma se desintegrasse. Mas ela não fez isso. Ela enfrentou ele, disse que te amava e que nunca faria isso e que também não deixaria que ninguém mais o fizesse. Ela fugiu com você pra bem longe. E quando a encontramos, você já tinha acordado. Eu não sei como, mas você resistiu ao veneno. Ela te obrigou a voltar pra cá. Quando o tiozão lá descobriu, ele ficou uma fera. Disse que a Botan era a escória do Mundo Espiritual.

-         Ele a expulsou? – perguntou Suuichi sentindo o coração apertar

-         Bem pior, ele quase a matou, nunca tinha visto alguém tão forte como ele. Daí eu e o Koenma interferimos. Ele também ficou uma fera com o baixinho, mas o Koenma disse que resolveria e me mandou trazer a Botan para cá depressa. Ela não pode mais voltar para o Reikai Kurama, nunca mais.

-         E onde ela está?

-         Ela está muito ferida, eu se fosse você esperava ela se recuperar.

-         Eu não me importo, eu preciso vê-la. – disse Suuichi com urgência

Yusuke suspirou.

-         Ela está com a mestra. – disse finalmente

-         Muito obrigado.

Suuichi se adiantou para a porta, mas sentiu uma fisgada forte por dentro e quase caiu. Yusuke o pegou bem na hora.

-         Consegue caminhar? – perguntou colocando um dos braços do ruivo por trás do pescoço

-         Acho que sim. – disse Suuichi caminhando lado a lado com Yusuke.

Eles saíram sem dar muito na vista de ninguém. Caminhavam juntos pelas ruas escuras. A noite já estava alta quando eles chegaram às escadarias do templo. Eles subiam devagar, Suuichi desejando a todo o momento que Botan esperasse por ele. Lá da escadaria era possível ouvir os gritos desesperados de uma garota brigando com uma senhora.

-         Botan. – sussurrou Suuichi deixando Yusuke e correndo escada acima

-         Me deixe sair mestra Genkai! Eu preciso ver o Kurama agora! – gritava a voz doce e fina de Botan cada vez mais alto

Suuichi chegou ao fim da escada e pôde ver a sombra da garota brigando com a senhora, tentando sair de dentro do templo.

-         Botan! – gritou Suuichi correndo para de encontro às sombras

-         Kurama? – Botan abriu as portas do templo e vendo ao longe o ruivo de aproximar correndo. – Kurama!

Ela correu em direção a ele, sem se importar com os machucados e com o braço quebrado.

O homem que ela amava estava vindo para ela. As lágrimas caíam de seus olhos enquanto ela via o corpo dele mais próximo. Yusuke e Genkai observavam tudo de lados opostos do templo.

Os dois corpos se chocaram, ela o abraçou pela cintura e ele envolveu os ombros dela em seus braços.

-         Eu pensei que tivesse te perdido! – exclamou ele

-         Eu achei que nunca mais te veria de novo! – chorou ela afundando o rosto no peito dele

-         Eu te amo Botan!

-         Eu também te amo!

Botan agarrou uma mecha de cabelo dele e o puxou para baixo, para que ficassem no mesmo nível. Ambos se beijaram com força, como se não se vissem há anos, sem se importar que estivessem sendo observados.

-         Eles parecem felizes juntos. – comentou Genkai parando ao lado de Yusuke

-         Eles parecem coloridos juntos isso sim. – disse Yusuke vendo o casal se beijar ao longe.

-         Você sempre tem que dar uma de engraçadinho?

-         Desculpe mestra, saiu sem querer. – sorriu Yusuke

 

Fim

 

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