Resumo: Presente de aniversário para Angellore. Uma festa, uma dança e um sentimento. O ciúme, às vezes, é mais forte que a própria razão. [KB]

 Dedicado a minha amiga Angellore. Não demorei tanto quanto achei que fosse demorar, e talvez por ter escrito rápido demais as coisas tenham saído meio precipitadas, mas espero que goste do presente, não é nada mirabolante como as suas fics, principalmente a da jaca rs rs  

Ah, aviso pra quem for ler: História em universo normal com os personagens OOCs até demais...,


 

Timidez

 -Bianca Potter-

 

Shuuichi Minamino era um rapaz bem diferente dos demais. Para começar, detestava as férias de verão mais do que qualquer outra época do ano e, ao invés de aproveitar para se divertir, passava horas e horas sentado diante da mesa revendo mais e mais cálculos. Aquele era o único jeito que ele encontrava de para manter-se ocupado e tentar pensar o mínimo possível em coisas que não devia, ou melhor, em certa pessoa que estava volta e meia povoando seus pensamentos.

 

Depois, ele não era um humano como os outros, já que tinha o dom de controlar qualquer tipo de vegetal e usa-los como armas. Era mais conhecido como Kurama por seus amigos mais íntimos e pelos adversários. Ultimamente, no entanto, o ruivo andava querendo esquecer tudo pelo que já passara como Kurama, e tentava levar sua vida apenas como Shuuichi.

 

“Deve ser muito tarde”, ele pensou, sentindo uma incomoda dor no pescoço. Ao olhar para o relógio ao lado da mesa de cabeceira se deu conta que já eram mais de quarto e meia da manhã. Um frio estranho lhe passou pela barriga; fizera 18 anos há mais de quatro horas e nem se dera conta disso. Não que gostasse muito de aniversários, para ele era uma data como outra qualquer, mas esperava que naquele dia seus amigos fossem visitar-lo como não acontecia há muito tempo.

 

Kurama largou-se na cama e ficou fitando o teto. Apesar de ter passado a noite inteira acordado não se sentia nem um pouco cansado. Sem que pudesse evitar, a imagem de Botan apareceu em seus pensamentos. Será que ela também viria visitá-lo? Desejar felicidades... O rapaz balançou levemente a cabeça. Para que se iludir? Ela não iria se dar ao trabalho de sair do Rekai para vê-lo. Se fosse por Yusuke, talvez...

 

“Droga!”, o ruivo praguejou mentalmente. Amor e ciúmes, sempre ouvira que esses dois sentimentos andavam juntos, mas jamais imaginara que um dia iria senti-los. Amava Botan. Não sabia como, mas sentia muito mais que uma simples amizade ou afeto. De qualquer forma, sabia que não era correspondido. Botan parecia gostar muito de Yusuke, sempre demonstrava isso de várias formas, talvez o ex-detetive não tivesse percebido ou então preferia ignorar já que namorava Keiko.

 

– Shuuichi... – o ruivo sobressaltou-se ao ouvir a voz da mãe. – Está acordado, querido?

 

– Sim, mãe – Kurama disse, levantando-se. A senhora entrou no quarto sorrindo, deu um beijo no rapaz e foi pegar alguma coisa no armário dele. – Ah, o que está procurando aí? – ele perguntou erguendo a sobrancelha e estranhando o fato dela não ter dito nada a respeito da data.

 

– Um casaco para Shuuichi – ela disse ainda revirando as coisas. – Ele vai para uma excursão hoje e você sabe como seu irmão fica doente fácil.

 

– Ele vai para uma excursão? – Kurama repetiu, erguendo a sobrancelha.

 

– Sim – a senhora sorriu, virando-se para o filho. – O que foi? Parece que você está aborrecido com alguma coisa.

 

– Não é nada – Kurama disse, forçando um sorriso. – Não é absolutamente nada... – ele murmurou enquanto a mãe saia do quarto.

 

Ela havia esquecido? Como a mãe pudera ter esquecido que era seu aniversário? Havia feito alguma coisa errada para que a senhora não lembrasse que era aniversário dele? Nunca havia acontecido uma coisa dessas antes. Talvez ela estivesse ocupada preparando as coisas que Shuuichi iria precisar para a tal excursão e não havia lembrado imediatamente.

 

Com esse pensamento, Kurama foi tomar um longo banho e tentar colocar as idéias no lugar antes de descer para tomar café. Quando chegasse lá, provavelmente a família estaria reunida para fazer aquela festa assim que aparecesse. No entanto, não havia ninguém, apenas um bilhete da mãe dizendo que haviam ido deixar Shuuichi no parque ambiental. 

 

“Ótimo! Nem a minha própria família lembrou”, Kurama pensou, aborrecido.

 

O apetite que tinha desapareceu por completo. Sua mãe sabia que não gostava muito de aniversários, mas ignorar a data era um pouco demais! Ele saiu, aborrecido, pensando em ir procurar Hiei, mas ainda era cedo e com certeza o amigo não ficaria nada satisfeito em ter que conversar com ele aquela hora.   

 

Resolveu então ir até a biblioteca. Yusuke vivia dizendo que se continuasse daquele jeito iria virar um rato de biblioteca, mas o que Kurama podia fazer se sempre que se sentia nervoso ou ansioso demais apenas uma boa leitura era capaz de animá-lo um pouco?  Foi andando entre as prateleiras, correndo os olhos pelos livros, porém nenhum dos títulos lhe chamava a atenção. Pelo jeito teria que ler algum dos livros de Nietzsche novamente, um dos seus autores preferidos. 

 

De repente, o ruivo parou no meio do caminho ao ver quem estava parada diante de uma estante de livros de contos.

 

“Maya...”, ele pensou sem conter um suspiro de reprovação. Estudara com a garota no ginásio e depois perdera um pouco o contato com ela uma vez que foram para escolas diferentes. Às vezes, porém, ainda se encontravam casualmente e acabavam conversando, ou melhor, o ruivo tinha que ouvir os longos relatos dela sobre as suas “aventuras” na escola. Nem de longe o dia-a-dia de uma colegial era interessante, mas Kurama fazia de tudo para sorrir e às vezes fazer um sinal de concordância ao que ela dizia. Naquele dia, no entanto, não estava com paciência para agüentar ouvir a conversar de Maya, por isso deu meia volta e saiu da biblioteca antes que ela o visse.  

 

O que fazer então? A outra biblioteca ficava muito longe e definitivamente Kurama não queria ter que ir até lá. Até porque no rumo em que as coisas andavam era bem fácil que chegasse à biblioteca, escolhesse um livro e não conseguisse se concentrar na leitura.

 

Foi então até a casa de Kuwabara. O amigo era “meio” desmiolado, mas com certeza não havia esquecido o seu aniversário e conversaria sobre os assuntos mais absurdos. Kurama esperava assim se distrair um pouco. Quando chegou lá, no entanto, Shizuru lhe informou que Kazuma havia saído cedo e até aquele momento não havia dado sinal de vida. Kurama estranhou um pouco, mas mesmo assim agradeceu e foi embora.

 

Passou pela casa de Yusuke, mas Atsuko dissera que o filho havia sumido junto com Kuwabara. Kurama imaginou que os dois deviam estar arrumando confusão em algum lugar. Havia coisas que realmente não mudavam. Yusuke podia já estar com 17 anos, mas continuava se comportando como um adolescente de 14.

 

“Talvez seja por isso que Botan goste dele”, Kurama pensou sem conter um suspiro de cansaço. Às vezes Kurama sentia-se um pouco idiota por ficar pensando aquele tipo de coisa, mas se havia uma coisa que aprendera, era que não podia controlar seus pensamentos em relação a Botan. Isso era até um pouco irônico: conseguia ser frio e imparcial em qualquer assunto da sua vida, menos quando se tratava daquela menina de olhos ametistas. Já havia notado como Botan olhava para Yusuke, sempre com um carinho excessivo, sem falar nas vezes que ela ficou desesperada por ele estar em um perigo eminente. Kurama não podia evitar sentir-se mal por isso, mas até entedia, Yusuke e Botan tinham muito mais pontos em comum e era natural que ela gostasse dele.   

 

E pelo visto todos haviam esquecido o aniversário do ruivo mesmo. Kurama até que não se admirou tanto, uma vez que conhecia bem os amigos que tinha. Claro que estava um pouco aborrecido, afinal esperava que eles tivessem mais consideração.

 

Kurama acabou indo para o parque que ficava perto da casa de Yusuke. Sentou-se em um dos bancos que haviam lá e ficou observando as crianças que brincavam por ali. Por um momento sentiu inveja daquelas crianças. Ele nunca havia tido uma vida tranqüila, sempre estava preocupado com alguma coisa e, apesar de aparentar estar sempre calmo, escondia uma angustia imensa.

 

O rapaz ficou tanto tempo perdido em seus pensamentos que quando se deu conta já passava e muito do meio dia. Sua mãe já deveria estar preocupada pelo sumiço (ou talvez nem tanto, Kurama pensou aborrecido).

 

– Mãe? – Kurama exclamou, entrando. Franziu a testa ao ver as janelas e cortinas fechadas. Será que ainda estavam no parque ambiental com Shuuichi? – Hoje realmente é meu dia de sorte... – ele murmurou virando-se para trancar a porta.

 

No entanto, um grande estrondo atrás de si o fez vira-se rapidamente. Quando viu do que se tratava, arregalou os olhos não conseguindo acreditar bem no que estava vendo. Todos, absolutamente todos os seus amigos, estavam reunidos, gritando algo que Kurama não conseguira identificar, uma vez que sua surpresa fora tamanha que o deixara momentaneamente incapaz de reagir e até mesmo ouvir o que falavam. Foi passando por entre os amigos e identificando alguns rostos.

 

– Fala aí, Kurama! – Yusuke exclamou cumprimentando-o. – Te enrolamos não enrolamos? Aposto que tava achando que a gente tinha esquecido!

 

– Isso foi idéia sua, Yusuke? – Kurama perguntou, erguendo levemente a sobrancelha.

 

– Sabe como é, né? – Yusuke disse, balançando levemente os ombros. – Eu dei a idéia, mas todo mundo concordou! Inclusive a senhora sua mãe! – o rapaz disse sorrindo enquanto indicava a senhora que estava atrás do filho.

 

Ela o abraçou e pediu mil desculpas pelo que havia feito e logo explicou que achou que seria divertido fazer uma festa surpresa. Kurama ficou um pouco aborrecido, mas no final das contas estava até um pouco mais aliviado, afinal, não haviam esquecido realmente.

 

Quando Shiori se afastou, Kurama virou-se para Yusuke, Kuwaraba e Hiei (que acabara de se juntar aos amigos), um com a cara mais limpa que o outro.

 

– Até você, Hiei? – Kurama perguntou, surpreso pelo amigo ter aceitado participar daquela bagunça.

 

– Ele me obrigou – Hiei disse secamente olhando para Yusuke. – Ameaçou falar a uma certa pessoa um fato que ela não pode saber.

 

– O quê? – Kurama perguntou, confuso, e só então entendeu que ele deveria estar se referindo a Yukina. Como Kuwabara estava por perto não podia falar do que se tratava.

 

– Eu e Kuwabara ajudamos a senhora Shiori a arrumar as coisas por aqui – Yusuke dizia muito animado, possivelmente por ter conseguido enganar Kurama uma vez na vida. – Hiei foi chamar o pessoal, ele é rápido, tinha que ter uma utilidade...

 

– Idiota... – Hiei retrucou entre os dentes.

 

E lá estava armada a confusão entre os dois. Kurama revirou os olhos enquanto balançava levemente a cabeça. Ele desviou o olhar e viu a única pessoa que realmente lhe importava que estivesse naquela festa.

 

– Botan... – ele murmurou fitando a garota que ria e conversava com Yukina, Keiko e Shizuru.

 

– Como é, rapaz? – Yusuke perguntou franzindo a testa.

 

– Nada – Kurama disse forçando um sorriso. Bem que tentou parar de olhar para a garota, mas era um pouco impossível uma vez que passara tanto tempo sem vê-la. Somente em ouvir a risada dela, sentia que parte da saudade que tinha acumulado ia sumindo.

 

Yusuke olhou desconfiado de Kurama para as meninas, mas achou melhor fica quieto por algum tempo, pelo menos até as coisas na festa estivessem mais calmas.

 

Não demorou muito e as pessoas começaram a se aproximar de Kurama para lhe desejar felicidades e Yusuke, começando a ficar entediado, arrumou um jeito de afastar os moveis da sala para que pudessem dançar. Logo ele puxou Keiko que, totalmente a contra gosto, foi com o namorado.

 

Kurama ficou observando os amigos se divertirem. Em parte estava feliz por todos estarem reunidos novamente, mas por outro lado sentia-se um pouco sufocado. Botan limitou-se a desejar um feliz aniversário juntamente com Yukina e Keiko. Tinha que admitir que era um pouco frustrante estar tão perto, mas ao mesmo tempo tão distante dela.

 

– Vai ficar a festa toda ai no canto? – Yusuke perguntou de repente fazendo com que Kurama voltasse de seus devaneios.

 

– Você sabe que eu não sou muito sociável – Kurama falou, balançando levemente os ombros.

 

– Você tem que aprender a viver mais! – Yusuke disse enfaticamente. – Quando você menos imaginar a vida já passou e será tarde demais para tomar certas atitudes.

 

– Do que está falando? – Kurama perguntou, confuso.

 

– Por que não a convida para dançar? – Yusuke retrucou. fingindo não ter ouvido a pergunta do amigo.

 

– O quê? – Kurama exclamou, arregalando os olhos.   

 

– Botan – Yusuke explicou e Kurama tentou manter a expressão mais indiferente possível. – Nem adianta fazer essa cara! Eu percebi os olhares que você lançou para ela!!! – o detetive exclamou entre risadas. Kurama olhou para os lados, preocupado que alguém ouvisse, mas pelo visto estavam todos mais ocupados em suas próprias conversas.

 

– Às vezes você exagera na quantidade de besteiras! – Kurama resmungou, irritado.

 

– Mesmo? – Yusuke falou erguendo a sobrancelha. – Vai me dizer que não tá louco pra dançar com ela?

 

– Não – Kurama mentiu e Yusuke olhou para o amigo enquanto falava um arrastado “Sei!”. – Mesmo que quisesse eu não iria, pois as coisas são muito mais complicadas do você pensa!!!

 

– Não são não! – Yusuke disse, rindo. – Quer ver? É mais fácil que lutar contra um youkai de classe S! – Kurama não entendeu bem, mas logo depois viu que Yusuke se dirigia para onde as meninas estavam conversando. Ele balançou levemente a cabeça não acreditando que Yusuke fosse capaz de fazer o que estava imaginando.

 

– E o pior que tem... – Kurama murmurou quando Yusuke puxou Botan para dançar com ele.

 

Kurama observou os dois dançarem. Era uma música lenta e Yusuke parecia bem a vontade em dançar com sua guia. Botan também não parecia estar nem um pouco tímida pela situação em que Yusuke a colocara. Kurama até imaginou que ela estivesse feliz. Como era ruim ter que observar aquilo. A garota que gostava nos braços de outro, tudo bem que esse outro era seu amigo e até segundos atrás andava sondando e tentando convence-lo a convidá-la a dançar, mas mesmo assim era uma situação extremamente ruim.

 

O ruivo olhou para Keiko que não parecia se importar muito com o fato de Yusuke estar dançando daquele jeito com Botan. Ele passara a mão em torno da cintura da menina e a mantinha bem próxima, pareciam conversar e Kurama achou que fosse melhor nem tentar imaginar qual seria o tema daquela conversa. 

 

“Maldito ciúme!”, Kurama pensou sem conter um suspiro de desanimo. Botan com certeza aceitara dançar com Yusuke porque fora ele que convidara e estava parecendo tão feliz porque era dele que gostava. Por um momento pensou que ela tinha o direito de ser feliz com quem quer que fosse, mas não era tão generoso assim, a ponto de sacrificar sua própria felicidade. No entanto, não havia nada que pudesse fazer para mudar aquele fato.

 

Bem que às vezes Kurama queria ter a ousadia de Yusuke, mas cada um tinha seu jeito ser; Yusuke era ousado, Kuwabara um amigo para qualquer momento, Hiei, apesar de ser fazer de frio, era o mais preocupado de todos. E Kurama?

 

“Eu sou um idiota!”, ele pensou, fechando os olhos e passando as mãos pelos cabelos, deixando-os um pouco desalinhados. Esperando que ninguém notasse, o ruivo retirou-se da sala e foi para a parte de trás da casa onde haviam algumas cerejeiras. Aquele era seu lugar favorito da casa, ali sentia uma paz inexplicável e naquele momento precisava deixar um pouco o ar abafado daquela festa.

 

Ele dirigiu-se até uma das cerejeiras e sentou-se aproveitando a sombra que a árvore fornecia. Não conseguiu conter um suspiro de frustração.  O que aconteceria se revelasse a Botan o que sentia? Tinha medo de perder a amizade dela Sem falar que quando estava perto dela não conseguia esconder sua timidez. Kurama sorriu tristemente. Aquilo era tão irreal, mas sabia que mesmo que ensaiasse tudo para falar com ela, no momento em que estivesse diante daquele olhar, as palavras lhe escapariam. Jamais na vida pudera imaginar que se sentiria intimidado por alguém, mas Botan conseguia – sem nem mesmo imaginar – deixá-lo inseguro. Pelo visto teria que carregar pelo resto da vida a grande agonia de pensar nela todas as horas do dia.

 

– Kurama?! – ele abriu os olhos, levantou a cabeça franzindo levemente a testa e, se estivesse de pé, certamente teria caído de susto ao ver Botan. – Está se sentindo bem?

 

– Estou – o ruivo disse, mantendo a expressão séria. – Por que não estaria?

 

– Não sei – Botan falou, balançando levemente os ombros. – Você parecia tão distante. Pensava em algo importante?

 

– Nada demais – Kurama respondeu, tentando sorrir. – Não estava dançando com Yusuke?

 

– Sim, mas ele estava reclamando que eu pisava muito nos pés dele – Botan disse, revirando os olhos enquanto fazia um gesto de impaciência. – Além disso, acho que ele devia dançar com Keiko e não comigo.

 

Kurama limitou-se a fazer um leve aceno com a cabeça. Não sabia bem o que dizer. Por que sempre que estava perto de Botan perdia a fala daquela maneira? Queria que aquela situação terminasse de uma vez, mas o que poderia fazer? Arriscou levantar os olhos para fitá-la, mas a encontrou ajoelhada diante de si.

 

– Qual é o problema? – Botan perguntou preocupada. – Eu sei que você é reservado demais, mas mesmo assim deveria estar demonstrando mais alegria.

 

O ruivo ficou sem entender bem o motivo daquela preocupação repentina. Será que um dos amigos havia pedido para que ela fosse falar com ele e perguntar o que acontecia? Ficou com vontade de perguntar isso a ela, mas optou por ser mais sutil.

 

– Estou feliz sim – ele disse e dessa vez seu sorriso foi mais sincero. – Apenas um pouco cansado.

 

– Você sabe que se acontecer qualquer coisa você pode contar comigo, não é mesmo? – Botan perguntou, colocando uma das mãos sobre as dele. Será que a menina não tinha a menor idéia do que aquele mero contato fazia com ele? Com certeza não, uma vez que entrelaçou seus dedos nos dele e sorriu de certa maneira até convidativa em sua direção.

 

Kurama teve que balançar levemente a cabeça para afastar certos pensamentos da mente. Sua vontade era de abraça-la, trazê-la para perto de si e provar aqueles lábios rosados a fim de matar sua sede, passar os dedos por aquelas madeixas azuis e ver se eram tão sedosas quanto pareciam.

 

“Controle-se, Kurama!”, ele pensou severamente.

 

– Quer dançar? – Botan perguntou animada, fazendo com que o rapaz arregalasse os olhos achando que não havia ouvido coisas.

 

– Ah? – Kurama retrucou confuso. – Eu não sei se sei dançar – ele disse um pouco sem graça.

 

– Pior que eu não pode ser! – Botan exclamou, rindo, e levantou-se de um salto estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. O rapaz aceitou a ajuda meio que a contra gosto. A música na sala estava tão alta que podia ser ouvida de onde estavam e, para piorar, era uma música muito romântica e que falava de...

 

“Timidez”, ele pensou sem conter um suspiro de nervosismo. Será que essa palavra e seu significado não constavam no vocabulário de Botan?

 

Quando se deu conta Botan já havia segurado as mãos dele e estava colocando a outra em torno em de sua cintura.

 

– É assim – ela disse sorrindo.

 

Depois ela passou sua mão livre no ombro do rapaz. Um pouco desajeitado, ele começou a seguir os passos dela. Sempre ouvira dizer que o segredo de uma boa dança estava em se deixar levar pela melodia e resolveu tentar. Até que não foi tão difícil quando imaginara.

 

Minutos depois se moviam lentamente, apesar da música ter ficado mais agitada. Botan fechou os olhos e encostou sua cabeça no peito de Kurama que esperava que ela não percebesse o quanto seus batimentos estavam acelerados naquele momento. No entanto, ela parecia apreciar a música e não estava notando o quanto ele estava nervoso.

 

Não demorou muito para que ela levantasse a cabeça e o fitasse com um leve sorriso nos lábios. O ruivo perdeu-se completamente no olhar dela, queria identificar o que expressavam, mas Botan às vezes parecia ser indecifrável. Naquele momento, segurando a garota ali em seus braços e a sentindo tão perto, Kurama teve a absoluta certeza de que estava amando aquela menina, mais do que poderia imaginar.

 

Ele estava tão distante que demorou um pouco para perceber que Botan estava na ponta dos pés e se aproximava cada vez mais. Ele tentou falar alguma coisa, mas Botan deslocou suas mãos para a nuca dele, em um gesto que o fez perder completamente o controle daquela situação, se é que ele tinha algum.

 

Se ela estava querendo enlouquecê-lo, estava prestes a conseguir.

 

Em um gesto inesperado, ela colou seus lábios nos dele, fazendo com que uma explosão acontecesse dentro do seu corpo. Era como se um furação estivesse o atingindo em cheio, um furação de sensações e sentimentos arrebatadores que o deixavam incapaz de raciocinar.

Sentiu a língua dela, quente e úmida, passar sobre seus lábios, pedindo por passagem, aonde ele não a negou. Abriu a boca permitindo que o beijo se aprofundasse. Kurama não conseguiu se segurar, levou as mãos aos cabelos dela e puxou com cuidado a liga que ela usava para prendê-los. Antes que ela tivesse tempo para desistir do que estavam fazendo, o ruivo deu um giro e a prensou contra a árvore. As mãos, num gesto carinhoso e ao mesmo tempo ousado, percorriam o corpo dela e ele não pode deixar de sentir uma satisfação enorme ao notar que ela estremecia em seus braços. 

Palavras não eram necessárias naquele momento, mas Kurama sentia que se não interrompesse aquele beijo e falasse de uma vez tudo que queria acabaria fazendo coisas que com certeza se arrependeria profundamente. Teve que segurar um gemido quando sentiu as mãos dela adentrarem por sua blusa e levemente arranhar seu abdômen. Ela estava sendo mais ousada do que poderia imaginar, mas Kurama não podia negar que estava gostando e muito dos atos dela.

Como “vingança” pelo suspiro que ela o havia feito dar, Kurama começou a mover sua língua de maneira lenta e sensual, e percebeu que ao invés de intimida-la estava a incentivando a aprofundar ainda mais suas caricias.

O sabor dela, o cheio dela, o calor dela, tudo o deixava enlouquecido.

Pare... – ele murmurou quando seus lábios se desencontraram. Botan afastou-se o encarando um pouco confusa. Kurama passou a mão pelo rosto em sinal de puro nervosismo, e voltou-se para fitar a menina que continuava olhando-o sem entender nada. – Por que você fez isso? Das duas uma: ou você está louca ou está querendo me enlouquecer!!!

O quê? – Botan murmurou quase sem voz.

A expressão de Kurama mudou. Antes ele estava tão confuso quanto ela, mas num rompante sentiu uma raiva tão grande apoderar-se de si. Ela havia feito aquilo apenas para brincar com ele? Claro que havia gostado e muito da ousadia dela, mas sabia que ela não havia feito aquilo porque estava com vontade, mas sim para se divertir.

Eu... – Botan começou com um pouco dificuldade, ambos ainda respirando pesadamente a fim de recuperar o fôlego que haviam perdido. – Você vai se fazer de ofendido? Vai me dizer que não era isso que você queria?

De onde você tirou isso? – Kurama retrucou, estreitando os olhos.

Não responda com outra pergunta! – Botan exclamou nervosa.

E você não fuja das minhas!!! – Kurama disse. cruzando os braços.

Botan grunhiu e virou o rosto. Kurama fez o mesmo movimento dela e ficou fingindo estar mais interessado nas flores da cerejeira. Ficaram incontáveis minutos ali, próximos, mas cada um em seus próprios pensamentos.

O ruivo não conseguiu conter um suspiro de excitação ao imaginar o que poderia ter acontecido caso não tivesse interrompido aquele beijo. Fora uma loucura que não deveria nem ter começado! Mas como iria fazer para controlar o desejo que tinha por ela? E só tendia a piorar depois do que havia acontecido.

Inconscientemente olhou para Botan. Ela mantinha a cabeça baixa e mordia levemente o lábio inferior em sinal de nervosismo. Kurama seria capaz de dar qualquer coisa para saber no que ela estava pensando.

Você ainda não me explicou por que saiu daquele jeito da festa – Botan disse, na tentativa de quebrar aquele silêncio.

Não devo explicações a você – Kurama disse secamente.

Você nunca foi tão rude assim com alguém antes e ainda mais comigo – Botan disse em um tom decepcionado. – Se eu incomodo basta dizer e voltarei para perto de Keiko e Yukina.

Keiko e Yukina? – Kurama repetiu erguendo levemente a sobrancelha. – Será que não é com outra pessoa que você quer ficar?

Como assim? – Botan perguntou confusa.

Ora Botan! – Kurama exclamou, perdendo completamente o controle. – Você acha que eu não notei que você estava feliz dançando com Yusuke? Que não percebo a maneira como você o olha? Ou será que vou precisar fazer uma lista sobre as vezes que você se preocupou com ele, chorou por ele, se desesperou por ele... – a voz do ruivo de partiu quando percebeu os absurdos que estava falando. Não tinha a menor idéia do motivo pelo qual havia começado a falar tudo aquilo.

Ele fechou os olhos esperando ouvir os passos dela se afastando, mas sobressaltou-se ao sentir as mãozinhas dela sobre seus ombros. O ruivo continuou de costas e Botan, notando que ele não iria virar-se para fitá-la, deu a volta e ficou de frente para o rapaz que ficou muito confuso ao ver que ela mantinha um sorriso nos lábios.

Por acaso, você está com ciúme? – ela perguntou um pouco risonha.

Kurama sentiu uma vontade louca de dar uma resposta bem malcriada, afinal de contas, quem Botan pensava que era para ficar fazendo aquele tipo de pergunta?! Por outro lado tentou confirmar, era isso sim que estava sentindo. Não havia parado para pensar antes, mas o aperto no peito que sentia quando via Botan e Yusuke juntos era um sentimento que simplesmente o corroia e que não podia ser controlado.

E saiu da festa por que não estava agüentando me ver dançando com Yusuke? – Botan continuou levando a mão ao rosto do ruivo que fechou os olhos aproveitando os afagos da guia espiritual.

É... melhor voltarmos para a festa – Kurama disse com a voz falhando enquanto desvencilhava-se dela. – Já devem estar sentindo a nossa falta.

O que você disse é verdade – Botan falou, fazendo com que Kurama parasse onde estava.

Ele virou-se para ela com os olhos arregalados e com a respiração um pouco dificultosa. O que ela queria? Terminar de uma vez com suas esperanças? Destruir o resto de forças que ainda tinha?

Eu não vou negar que sempre me preocupei demais com Yusuke – Botan continuou, parecendo não se importar muito com a expressão que mesclava surpresa e dor do ruivo. – Realmente me desesperei por ele muitas vezes, mas porque Yusuke é meu amigo! Eu me preocupava com ele porque afinal de contas ele é humano, só descobrimos que ele tem sangue de youkai tempos depois.

Kurama ouvia a tudo sem fazer o menor movimento de que iria interrompê-la, estava confuso demais para falar qualquer coisa.

Eu não queria correr o risco de expor meus sentimentos em relação a você – Botan disse quase que em um murmúrio. – Um pouco depois daquela “brincadeira” que Genkai fez seqüestrando Yusuke, eu ainda tinha que resolver algumas coisas aqui no mundo dos homens e, antes de voltar para o Reikai, vim até aqui decidida a conversar com você, mas... Você estava com uma garota.

Uma garota? – Kurama repetiu, franzindo levemente a testa.

Vocês estavam abraçados – Botan falou, balançando levemente a cabeça. – Eu desisti e resolvi ser mais contida nas minhas ações quando se tratasse de você. Mesmo assim eu ainda fui muito afoita quando você lutou contra Shigure. Eu quase coloquei tudo a perder.

Eu não estou entendendo mais nada – Kurama disse passando as mãos nervosamente pelos cabelos. – A garota que você viu se chama Maya, nós estudamos juntos e...

Você não precisa me dar explicações – Botan disse levantando as mãos em um sinal para que ele parasse. – O fato é que eu percebi que você tinha uma vida aqui e achei melhor não causar mais problemas a você fazendo uma declaração. Então hoje, enquanto Yusuke e eu dançávamos, ele me disse que você queria dançar comigo. Eu achei que fosse brincadeira, afinal você sabe como Yusuke é, mas resolvi me arriscar e pelo visto você não gostou... – a garota não pode concluir, pois Kurama a puxou para perto de si e a abraçou com força.

O que você faria se eu dissesse que você está enganada? – ele perguntou com a voz um pouco rouca. – Que Maya não me interessa nem um pouco, que estava sim e com muito ciúme de você...

Botan afastou-se um pouco do ruivo e o encarou com um certo olhar de incredulidade, mas logo em seguida sorriu.

Eu diria que deram um sumiço no Shuuichi Minamino reservado e até mesmo meio tímido que conheço – a jovem disse ainda com um sorriso nos lábios, mas era um sorriso diferente, os lábios estavam contorcidos de uma maneira um pouco mais sensual. Kurama teve que segurar um suspiro para que Botan não percebesse o quanto aquele sorriso, e aquele olhar, o faziam perder o fôlego.

Pois fique sabendo que foi você que deu esse sumiço “nele” – Kurama disse rindo. Botan tentou se livrar dos braços dele enquanto exclamava indignada que não tinha nada haver com aquilo. – Tem tudo haver, Botan... Eu amo você, e esse beijo fez com que eu despertasse de um terrível pesadelo que eu andava tendo durante todos esses meses, dos pensamentos que me faziam sofrer tanto – ele murmurou com a voz rouca, próximo a orelha dela. Sorriu satisfeito ao perceber que ela ficou completamente arrepiada e parou de tentar de se soltar.

Oh, isso é golpe baixo – Botan falou baixinho, quase sem voz.

Quando Kurama se deu conta, já havia puxado Botan para mais perto de si. Desta vez foi sua vez de surpreende-la com um longo e desejado beijo.

– Nós... Nós temos que voltar para a festa – Botan disse em um tom urgente quando seus lábios se desencontraram.

Você é linda – Kurama sussurrou enquanto roçava seus lábios na bochecha dela e fez com que Botan perdesse completamente o rumo do que falava, mas conseguiu se afastar antes que ele descesse ainda mais os lábios.

Por favor, Kurama – Botan disse um pouco nervosa. – Eu também queria ficar o resto do dia aqui, mas não podemos!

Tudo bem – Kurama falou, segurando as mãos dela e entrelaçando seus dedos logo em seguida.

Espera um segundo! – Botan exclamou um pouco exasperada quando ele a puxou. – Nós não podemos aparecer na sala assim! – ela murmurou corando.

Por que não? – Kurama perguntou, erguendo a sobrancelha. Botan arregalou os olhos como se a respostas fosse obvia. – Todos vão saber mais cedo ou mais tarde que estamos namorando – Botan fitou o ruivo visivelmente emocionada, mas ao contrário das expectativas dele, ela deu um tapa um tapa no braço dele.

Acho que criei um monstro! – ela exclamou fingindo estar chateada. Ele sorriu, deu um leve beijo nos lábios dela e a puxou novamente. – Espera! A tal de Maya está aqui?

Kurama soltou uma longa gargalhada. Pelo visto não era o único que sofrera todo aquele tempo com o sentimento enlouquecedor que era o ciúme. Mas Botan não tinha o que temer, pois Kurama sabia que tudo que precisava estava ali ao seu lado e nada nem ninguém poderia abalar a felicidade que sentia.

 

  

FIM

     

 

::Mail to Bianca Potter